Michael Jackson, sorvetes e gentilezas

Essa abaixo é a história de meus dois curtos encontros com Michael Jackson.

Escrevi esse relato no dia de sua morte, pois até esse dia apenas amigos íntimos e família sabiam dessa história.

Porém, achei importante relatar a sua generosidade para todos.

 

Ele riu.

Pausou seu andar, me olhou e disse:

– Ok, give me your card. (okay…me dá seu cartão)

 

Seu nome era Michael Jackson.

Eu era um estudante de música em Los Angeles e aquela era minha primeira semana na América.

A história que antecede essa cena e sua continuação é mais ou menos simples, com exceção da mágica que a envolve.

 

Eram meus primeiros dias no M.I. (Musicians Institute), uma faculdade de música em Los Angeles que estudei de 1993 à meados de 1994. Acabara de achar um lugar para morar de aluguel, numa garagem de uma casa em Highland Park há 15 minutos do centro de Hollywood. Uma casa calma, onde morei os 16 meses que passei por lá, cujo gentil dono, se tornou uma grande amizade que carrego até hoje.

Na primeira semana de escola, tive a oportunidade de fazer algumas aulas com a Jennifer Batten, na época guitarrista de Michael Jackson, que alucinava o mundo da guitarra com seus solos virtuosos e sua energia espantosa.

No meu primeiro sábado Estado Unidense, após meu debut na faculdade, fui convidado por Jorge Briozzo, o gentil dono da casa, para conhecer a praia de Santa Monica, uma vez que eu ainda não tinha um carro.

Muito bacana.

Um sol quente, porém moderado, diferente do forno habitual do litoral brasileiro, uma areia fina e distante da água fria que quebrava na praia, falafel no papel para enganar a fome e boas conversas. Ao fim de nossa sessão praiana, umas 16hs, estávamos indo ao estacionamento pegar o carro para voltar para casa, quando ao som de uma buzina, Jorge me pegou pelo braço e disse baixo, tentando não mover os lábios:

– Esse na Cherokee verde acenando e buzinando pra gente é um amigo meu, o Adrian. Se ele nos convidar para almoçar, responda “não”. Da última vez, ele me levou num restaurante muito caro aqui em Malibu, fiquei quatro meses pagando a conta.

Ri da história e assim fomos ao encontro da camionete do Adrian.

De janela aberta, sorridente, muito simpático, ele nos cumprimentou animado, perguntou qual era meu nome e após breves apresentações, sem cerimônia, disparou:

– Vamos almoçar?

Jorge disse não imediatamente.

Adrian insistiu.

Jorge comentou que o estacionamento ia ficar caro, que estava tarde e que tínhamos acabado de comer um falafel.

Adrian respondeu:

E daí ?

Brasileiro e desbocado, interrompi aquela conversa ridícula, confessando:

– Sabe o que é Adrian…estamos duros. Então tem que ser um lugar bem barato ou você nos ajuda a pagar a conta (nesse caso, paciente leitor, ele era nitidamente resolvido financeiramente).

Adrian parou de sorrir, olhou pra baixo rapidamente – como quem faz contas de cabeça – e respondeu:

– Claro, entrem logo antes que eu mude de idéia. E riu de suas próprias palavras.

Fomos ao primeiro restaurante; fechado (eram 16hs).

Adrian disse: conheço um bem bacana que está aberto.

Um minuto depois, ainda no bairro de Santa Monica (onde Michael morava) e sentado no banco de trás do carro, o que vi foi matematicamente improvável:

Pelo reflexo do vidro espelhado da janela de um Café Francês do outro lado da rua, vi uma porta de uma camionete limusine GMC branca abrindo e Michael Jackson saindo. Não sei se me fiz claro, mas só para constar:

Se estivesse um ou talvez dois segundos atrasado ou quem sabe adiantado, ou mesmo sentado no banco da frente, não teria ângulo suficiente para ver o reflexo da tal janela e conseqüentemente ver o Michael abrindo a porta. Tudo parecia curioso demais.

Era, porém, claro para mim o que tinha que fazer.

Falei com toda falta de intimidade que tinha com o dono do transporte:

Adrian… pare o carro. O Michael Jackson está entrando num Café do outro lado da rua.

– Quem?

– Michael Jackson.

– Como você sabe?

– Eu vi.

– E se for um sósia?

– Numa camionete limusine GMC de meio milhão de dólares?

– Adrian – bom de contas – emudeceu, mas não parou o carro.

Falei num tom mais ansioso:

– Adrian, pare o carro, por favor.

– Mesmo se for ele, o que você vai fazer?

– Trocamos olhares pelo retrovisor e ele entendeu que eu estava em um estado pouco negociável.

Paramos o carro, já longe e corri para o Café. Antes de entrar, olhei dentro da limusine; três seguranças jogavam cartas despreocupados. No Café – vazio – um casal de velhinhos comia um sundae.

Perguntei ao único garçom da casa, que secava copos:

– Onde está o Michael?

– Que Michael?

Decifrei a charada imediatamente: acredite ou não, Michael Jackson parou para ir ao banheiro e ninguém o viu entrando no lugar.

Procurei o banheiro e nada…o lugar era grande.

Até que vejo do outro lado do balcão uma porta se abrindo e Michael saindo.

Adrian, que já tinha entrado e estava por lá, o cumprimentava com alegria.

Com passos apressados cheguei a Michael:

Óculos espelhados Ray-Ban, ombreira dourada, calça preta e camisa preta (sem as famosas fardas frontais douradas, num estilo mais “casual”) ele me cumprimentou.

Com as mãos no bolso e muito relaxado, ficou parado, como que esperando uma conversa (pois na minha mente, ele teria me cumprimentado e saído às pressas).

Chocado com o súbito interesse, disse:

– Sabe, estou tendo aula de guitarra com a Jenniffer…

– Really?

E assim, do nada…ali estava eu…conversando de música com o Michael Jackson com meus pés cheios de areia.

Falamos de guitarra, do que ele gostava no estilo da Jenniffer , da sua banda, de música. Até que ele me perguntou da onde eu era e comentei que era do Brazil.

– Really??! E num tom mais animado, falou:

– Cara, eu adoro o Brazil…

Perguntei por que ele não tinha tocado ainda no Brazil (era fevereiro de 1993…eu obviamente  gosto de pensar que o único show que ele fez aqui dez meses depois, teve a ver com nosso papo). Ele me perguntou se eu achava que as pessoas iriam ao show. (rs)

– Cê ta brincando? Bobear, você tem mais fãs lá do que aqui.

Ele riu. Começou a se mover em direção a porta de saída lentamente.

Pensei:

– Puxa, já era…e perguntei:

– Você precisa ir, né?

– Não… queria tomar um sorvete…quer um?

(ceeeerto…)

– Claro. (caramba, como é surreal escrever sobre isso)

Mas na rua, do lado de fora, outra realidade se aproximava:

Adolescentes que estavam por perto esperavam sua saída, talvez por acharem que não podiam entrar no Café…não sei.

Ali, notei que acabara meu momento de privacidade com ele.

Falei sem pensar:

– Michael, queria tocar com você. Uma canção lhe acompanhando na guitarra, me daria inspiração para uma vida inteira.

– Ele parou de andar e se virou. Com um leve sorriso, ele me passou a expressão mais confiante que recebi em 20 anos de carreira encontrando todos os artistas que a vida me possibilitou conhecer. Balançando a cabeça afirmativamente, seu olhar e seu rosto diziam: “That’s it boy. That’s the attitude”.

Respondeu prontamente:

– Ok, give me your card. (okay…me dá seu cartão)

– Não tenho cartão ainda. Cheguei do Brazil faz uma semana.

– Michael olhou um vaso decorativo em cima da mesa, levantou-o e pegou um papel que estava embaixo dele.

– Olha…Escreve seu número aqui.

– Escrevi meu telefone (o do Jorge Briozzo, na verdade) apoiado em suas ombreiras.

Ele saiu. As adolescentes atacaram.

Distanciei-me e sentei, chocado.

Vi ele pegar o sorvete, mas a pequena multidão crescia e ele correu pra sua limusine com o sorvete na mão.

Antes de entrar, ele parou e olhou pelo vidro espelhado do Café. Sem conseguir ver nada, foi dando uns passos até a porta, como que me procurando ou procurando algo ou alguém.

Pensei:

– Não é possível…

Mas era. Ele veio até a porta, me viu sentado. Tirou o papel com meu telefone do bolso e o sacudiu no ar, como quem diz:

– Do caralho sua coragem brother…

Passei um mês grudado no telefone. Comprei fitas novas pra secretária. Mas ele não ligou…sniff

O único comentário do Jorge nesse dia foi: “Não acredito ! O Michael Jackson tem meu número ?!” rs

 

Sua presença era calma e foi sem dúvida o mais humilde pop-star que conheci, que conversei.

Tratou-me como igual, apesar de sua grandeza evidente.

Dois meses depois, e passado o alvoroço, saí da faculdade para almoçar.

Andava por Los Angeles pelos back alleys (aqueles becos que aparecem em filme). O pessoal da escola dizia que era muito perigoso andar pelos becos, mas pra brasileiro aquilo era uma piada…sério – tinha até umas tabelas de basquete penduradas pros “bandidos” brincarem.

De repente, andando sozinho, vejo uma camionete limusine GMC branca vindo em minha direção a dois por hora, apertada na estreita passagem – que não pode entrar carros, aliás…

Penso:

– Cê ta zoando ?

Não. O destino não estava brincando.

Era o carro de Michael com quatro policiais acompanhando-o a sua volta, vindo na minha direção.

Tive que parar, não dava nem para ficar ao lado da janela, pois era muito apertado pra camionete passar.

A Limo parou. A porta abriu. Michael saiu.

Só tinha eu no beco. Aproximei-me e uma policial fez sinal com a mão de “chega pra lá”.

Michael percebeu a tensão e me olhou. Parou de andar e sorriu, como se soubesse que me conhecia, mas não lembrava da onde. Hesitou, veio em minha direção, mas a policial pôs a mão em suas costas e ele parou.

Pôs o dedo indicador no lugar do relógio (mesmo não usando nenhum relógio), como quem diz:

– Pô…to atrasado…senão parava pra conversar.

Eu sorri. Ele deu tchau. Corri pra rua. Na Hollywood Boulevard tinha uma cerimônia no Wax Museum de sua primeira estátua de cera.

Aqui no Brasil, cinco anos atrás, tomando um vinho com Paulo Ricardo do R.P.M. e o guitarrista Luis Carlini na casa noturna que eu me apresentava, o Marcenaria, Carlini me disse que o Michael deu um pedal Wha Wha pra ele quando eles se conheceram no camarim do Palácio de convenções do Anhembi após show do Jackson 5.

O Rei da Gentileza.

O Rei da Dança.

O Rei da Música.

O Rei da Voz.

The King of Pop.

Não haverá outro tão cedo.

Um beijo pra você, meu irmão, que nos ajudou a sonhar mesmo sem saber.